Que momento legal pra gente pensar no que vem pela frente no mundo do PR. Nesta primeira edição do Café com PR do ano, decidi trazer a minha visão de tendências de PR e como podemos aproveitá-las para crescer como profissionais neste setor.
Antes da gente mergulhar no assunto, um pedido: se você curtiu esse conteúdo, salve ele e compartilhe com outros PR Pros.
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TL;DR
O seu tempo é valioso, por isso, deixo aqui um resumo executivo das tendências cobertas nesta news.
Tendência #1: Mais ataques à imprensa
A escalada da desinformação coloca RP diante de um ponto de inflexão. Defender a imprensa e sustentar narrativas baseadas em fatos virou estratégia reputacional.
Tendência #2: PR na era da IA
Modelos de IA confiam no conteúdo que RP ajuda a construir. Quem entender isso agora passa a influenciar como marcas aparecem nas respostas de IA.
Tendência #3: Human-led branding
A reputação das pessoas passou a carregar a das empresas. Executivos viraram ativos estratégicos e riscos reputacionais em igual medida.
Tendência #4: Data-driven PR
Dados, quando bem contextualizados, deixaram de ilustrar discursos e passaram a sustentar credibilidade em um ambiente de baixa confiança.
Tendência #5: Mensuração de PR
PR não é atribuição direta. A evolução está em modelos mais maduros que conectam reputação, percepção e impacto de longo prazo.
Tendência #1
Mais ataques à imprensa e um ponto de inflexão para o mercado de RP
Os ataques digitais contra jornalistas e veículos de imprensa não são pontuais. Eles fazem parte de um ambiente de desinformação que tende a se agravar.
Em 2024, foram registrados cerca de 700 mil ataques digitais contra a imprensa. Minha previsão é que esse número dobre, ultrapassando 1,4 milhão nos próximos ciclos, impulsionado por fake news e campanhas coordenadas de desinformação.
Isso ocorre em um momento crítico. A imprensa está menor, mais pressionada financeiramente e operando no limite. Ainda assim, segue sendo um dos principais pilares de credibilidade do país. Quando a imprensa enfraquece, a reputação das empresas enfraquece junto.
Por isso, este não é um problema exclusivo da mídia. É um tema que exige união dos PR Pros e de suas organizações. Defender a mídia nacional não é uma posição ideológica, é uma decisão estratégica para preservar o ambiente onde fatos ainda importam.
Fake news prosperam quando faltam dados, contexto e narrativas verificáveis. O papel de Relações Públicas passa a ser produzir campanhas e conteúdos sustentados por fatos, fontes e evidências claras. Menos ruído, mais consistência.
Estamos preparados para atuar como defensores ativos da imprenssa ou vamos assistir do banco de reservas à destruição do nosso ecossistema?
Tendência #2
A influência silenciosa do PR na era da IA
Os principais modelos de IA generativa são treinados a partir do ecossistema de informação existente. E esse ecossistema é formado, em grande parte, por conteúdo da imprensa e por fontes corporativas confiáveis.
Um estudo da Muckrack confirma isso de forma clara: cerca de 94% das fontes citadas por modelos de IA vêm de mídia não paga, e mais de 80% são conteúdos de earned media. Jornalismo, análises independentes e sites especializados estão no centro do que a IA considera confiável.
Isso coloca os profissionais de RP diante de uma oportunidade estratégica inédita.
Os principais mecanismos de descoberta e recomendação estão sendo alimentados, em grande parte, pelo conteúdo que ajudamos a construir. Influenciar esse ambiente passa a significar influenciar como marcas aparecem em respostas de IA, com impacto direto em reputação e no processo de vendas.
Mas essa oportunidade exige maturidade. PR Pros precisam entender como esses modelos funcionam e priorizar narrativas consistentes, verificáveis e suportadas por dados. Conteúdo frágil não escala. Conteúdo bem fundamentado, sim.
Entramos em uma era de ouro para Relações Públicas. Não porque ficou mais simples, mas porque o trabalho bem feito passou a ocupar o centro do ecossistema de informação.
Estamos capacitados para assumir esse protagonismo na era da IA?
Tendência #3
Human-led branding e o novo risco reputacional
As pessoas querem cada vez menos se relacionar com marcas abstratas. Elas querem conhecer quem está por trás das decisões, da visão e da cultura das empresas. Entramos de vez na era do branding liderado por humanos.
Executivos passaram a ocupar o centro da narrativa pública. CEOs, fundadores e líderes funcionais se tornaram business influencers, capazes de gerar confiança, atrair talentos, abrir mercados e acelerar negócios. A marca pessoal deixou de ser acessória e passou a ser infraestrutura de reputação.
Isso cria oportunidades enormes, mas também riscos proporcionais.
Hoje, o que um executivo diz, faz ou publica pode fortalecer ou fragilizar uma marca em minutos. Casos recentes mostram como comportamentos individuais escapam do controle institucional com facilidade. Não é preciso nem entrar em figuras mais óbvias. A linha entre reputação pessoal e corporativa praticamente desapareceu.
Ao mesmo tempo, o poder dessa dinâmica é inegável. Basta olhar para a Thinking Machines Lab achine Labs, criada por Mira Murati após sua saída da OpenAI. Em poucos meses, sem produto lançado, a empresa atingiu uma avaliação de US$ 10 bilhões.
Não foi tecnologia de ponta. Foi a reputação da Mira.
Para os PR Pros, isso muda completamente o jogo.
Não basta mais gerir narrativas institucionais. É preciso acompanhar, orientar e estruturar a presença pública dos executivos com intenção estratégica. Autenticidade continua sendo essencial, mas autenticidade sem direção virou risco.
Branding liderado por humanos (human-led branding) exige clareza de posicionamento, limites bem definidos e alinhamento constante entre pessoa e empresa.
Tendência #4
Data-driven PR: credibilidade em um ambiente de baixa confiança
Em um mundo onde a informação é cada vez mais superficial e difícil de confiar, o uso de dados em Relações Públicas deixa de ser diferencial e passa a ser um elemento central de credibilidade. Mas é importante deixar algo muito claro: não se trata de usar dados pelo dado.
Data-driven PR funciona quando três elementos caminham juntos: contexto, dados e storytelling. Dados sem contexto não constroem confiança. Contexto sem dados vira opinião. E storytelling sem base factual não se sustenta.
Quando bem utilizados, dados ajudam a ancorar narrativas, reduzir ruído, apoiar decisões estratégicas e fortalecer a reputação de marcas em um ambiente cada vez mais cético.
Eu mapeei 9 formas eficientes de usar dados em narrativas de PR. Compartilho elas aqui para que você possa utilizar na sua estratégia de 2026 (depois me conta se funcionou!).
As 9 formas mais eficientes de usar dados em PR
Inovação em Produtos ou Serviços
- Demonstrar a necessidade do mercado pelo novo produto/serviço.
- Estatísticas sobre testes beta ou estudos de caso iniciais.
- Dados sobre investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
- Impacto de inovações tecnológicas no setor.
Relatórios Setoriais e de Tendências Futuras
- Insights baseados em dados coletados sobre tendências do setor.
- Posicionar a empresa como fonte confiável do setor.
- Modelos preditivos para fazer previsões sobre tendências futuras.
- Análises de cenários baseadas em dados históricos e projeções.
Resposta a Crises
- Contextualizar situações de crise.
- Apresentar fatos e números para contrapor desinformação ou percepções negativas.
Campanhas de Conscientização
- Estatísticas para destacar questões importantes e motivar ação.
- Demonstrar o impacto de iniciativas de ESG.
Relatórios Financeiros e de Desempenho
- Apresentar resultados financeiros de forma clara e impactante.
- Destacar métricas-chave de crescimento e sucesso.
Recrutamento e Employer Branding
- Cultura organizacional, satisfação dos funcionários e crescimento.
- Apresentar estatísticas sobre oportunidades de carreira e desenvolvimento.
Comparações com Concorrentes
- Destacar vantagens competitivas.
- Análises de mercado que posicionem a empresa favoravelmente.
Expansão de Mercado
- Usar dados demográficos e de mercado para justificar expansões.
- Apresentar projeções baseadas em dados para novos mercados.
Casos de sucesso
- Agregar dados de sucesso do cliente para mostrar o valor do produto/serviço.
- Apresentar ROI médio ou outras métricas de sucesso dos clientes.
Ética e responsabilidade no uso de dados em PR
O aumento do uso de dados em PR traz uma responsabilidade proporcional. Dados só fortalecem a credibilidade quando são precisos, verificáveis, relevantes e contextualizados. Usá-los fora de contexto, distorcer visualizações ou omitir metodologias corrói exatamente aquilo que se pretende construir: confiança.
RP orientado por dados exige cuidado ético constante. Transparência sobre fontes, respeito à privacidade e clareza na apresentação não são mais boas práticas, são pré-requisitos. Em um ambiente de desinformação, o profissional de RP precisa ser guardião do dado, não seu manipulador.
Tendência #5
Mensuração de PR: menos obsessão por atribuição direta, mais maturidade estratégica
Ao longo de toda a história, profissionais de RP lutaram para provar o valor real do seu trabalho. Em muitos casos, essa luta começou do jeito errado.
Um dos maiores erros dos CMOs é tentar mensurar Relações Públicas com modelos de atribuição direta. PR, por definição, é uma atividade de atribuição indireta. O seu papel é gerir reputação, moldar percepção e criar contexto favorável para decisões que amadurecem ao longo do tempo.
Eu sempre digo: PR é gestão de reputação, e reputação é um ativo que se gerencia ad infinitum. Tentar medir algo estrutural e contínuo com métricas de curto prazo é, no mínimo, incoerente.
Dito isso, o cenário começa a evoluir.
Em dezembro, a agência Corporate Ink publicou o artigo, “The New PR Math: How B2B Tech Brands Actually Measure Sales Impact in 2026 and Connect PR to Pipeline”, trazendo uma abordagem mais madura para conectar RP, pipeline e vendas em empresas B2B de tecnologia.
O TL;DR do estudo é bastante claro:
RP B2B impulsiona pipeline ao aumentar a visibilidade em IA, moldar a percepção dos compradores, acelerar negociações e influenciar contas estratégicas.
A mensuração moderna de RP passa a focar em cinco áreas centrais:
- Visibilidade em IA:
Com que frequência LLMs como ChatGPT, Gemini e outros recomendam, citam ou mencionam sua empresa em prompts estratégicos.
- Share of Voice por Persona e Tema:
Se a marca domina as narrativas que realmente importam para seus compradores, e não apenas volume geral de menções.
- Influência no Pipeline:
O impacto da mídia conquistada na geração de oportunidades, na velocidade dos deals, no engajamento das personas e nas taxas de ganho.
- Integração com Vendas e ABM:
Como a mídia conquistada atua como ativo comercial em abordagens de vendas, nutrição e campanhas direcionadas a contas estratégicas.
- Correlação de Longo Prazo:
A relação entre aumento de awareness de marca e crescimento consistente na criação de pipeline e na geração de receita.
Vamos continuar, sim, lutando para defender o valor de RP. A diferença é que agora temos mais sinais, mais dados e modelos mais sofisticados para sustentar essa conversa. Cabe a nós, PR Pros, buscar conhecimento, formação e maturidade para construir métricas que façam sentido no dia a dia, sem violentar a essência do que fazemos.
A pergunta final segue incômoda, mas necessária:
Vamos continuar tentando provar o valor de RP com métricas antigas ou vamos finalmente evoluir a forma como mensuramos um ativo que nunca foi de curto prazo?
O próximo capítulo do PR já começou
As cinco tendências que percorremos aqui apontam para uma mesma direção: Relações Públicas está deixando de ser uma função periférica para assumir um papel estrutural no ecossistema de negócios, reputação e vendas.
O aumento dos ataques à imprensa e da desinformação coloca RP diante de uma responsabilidade coletiva. Defender a mídia e sustentar narrativas baseadas em fatos deixou de ser discurso institucional e virou estratégia de sobrevivência reputacional.
Ao mesmo tempo, a forma como modelos de IA e LLMs são treinados cria uma oportunidade inédita. O conteúdo que ajudamos a construir passou a alimentar diretamente os principais mecanismos de descoberta, recomendação e decisão. RP deixa de atuar apenas “antes da venda” e passa a influenciar como marcas aparecem nas respostas que moldam escolhas.
Essa lógica se conecta diretamente ao branding liderado por humanos. A confiança migrou das marcas para as pessoas que as representam. Executivos se tornaram ativos reputacionais de alto impacto, capazes de acelerar negócios ou gerar riscos em minutos. Gerir essa exposição com intenção estratégica virou parte central do trabalho de RP.
Nesse contexto, o uso de dados deixa de ser opcional. Data-driven PR não é sobre enfeitar narrativas com números, mas sobre sustentar credibilidade em um ambiente onde confiar virou um desafio. Contexto, dados e storytelling passam a caminhar juntos para reduzir ruído, apoiar decisões e fortalecer reputação.
Por fim, a mensuração de RP começa a amadurecer. Não porque finalmente encontramos a “atribuição perfeita”, mas porque surgem modelos mais inteligentes, capazes de conectar visibilidade, percepção, influência em pipeline e impacto de longo prazo. Reputação continua sendo um ativo infinito, mas agora temos mais ferramentas para defendê-la com rigor.
O fio condutor de tudo isso é claro: RP não está ficando mais fácil. Está ficando mais estratégico. E isso exige formação contínua, pensamento crítico e disposição para abandonar métricas, práticas e modelos que já não servem mais.



